sexta-feira, 15 de julho de 2016

naquele sonho das horas da tarde eu literalmente fazia merda dentro de um pratinho e depois chorava pedindo desculpa a todos que pela educação elisabetana não poderiam me perdoar de maneira alguma, mesmo que a minha mãe dissesse que era irrelevante ou mesmo incongruente pedir desculpas dessa maneira repetitiva e viciada a que eu estava a pedir nada mais me ocorria entre soluços, a não ser o que fazer com o monte de cocô dentro do prato que eu havia de jogar no lixo após relutar um pouco pensando que melhor jeito de limpá-lo (o que depois claramente soaria absurdo, não se limpa o prato em que se cagou como se fosse possível comer nele em outra ocasião mais amena) e então a solução seria que o aparato utilizado para cagar ali no meio do almoço em família deveria ser descartado higienicamente porque contaminar matéria significa torná-la a amálgama do indesejado, ainda que se veja até onde começa e termina um e outro objeto (merda e porcelana), nada, nem água nem sabão, nem a vontade de deus, irá separá-los.

domingo, 26 de junho de 2016

(um poema deve às vezes aparecer no fim da página)












gosto de pensar que estou navegando
este arquivo em sua superfície .doc
em que posso ao mesmo tempo, por
exemplo, enviá-lo ao movimento

da escrita – se penso a mecânica
das mãos a percorrer o ocidente
e, falha minha, não surpreende
em nada uma linguagem que se põe

acima, a favor de si mesma e
que contraria a lógica dos trânsitos de mercúrio
ainda em sua retrogradação intensa

mas não deixa pelo menos o ímpeto
de seus afazeres, por acompanhá-lo
sou capaz de relatar

envia mensagens para que se opere
o deus ex machina e salva assim
a lírica da narratividade (ou vice-versa)

mas nenhum deus recebe, fecha-se, portanto, o canal
de comunicação entre nós que esperamos
um belíssimo e trágico fim, ou que, pelo menos,
diga-se algo para 
finalizar o poema

sexta-feira, 17 de junho de 2016

É possível limpar a tumalina negra das seguintes formas:

/pode-se lavá-la em água com sal grosso, mexendo de tempos em tempos a mistura que torna a decantar, retornando à sua natureza bifásica – creio que assim se mostra alguma sinceridade mineral.

/pode-se enterrá-la, e aqui no local obviamente conduzido pelo verbo. Talvez um vaso de cacto ou num campo de rosas ou mesmo na areia.

/pode-se defumá-la com incenso e desse método ainda não tentei.

/qualquer um dos métodos escolhidos deve ser repetido semanalmente, quando nossas energias rompem o escudo que a tumalina negra projeta.
Lambe a tumalina negra até que sinta o gosto massento de nada/até que a primeira presença nela guardada deslize garganta abaixo – as memórias são uma coisa muito mas muito terrível porque nos mudam de feição dentre elas mesmas – o corpo sabe bem o que deseja e após retirar a tumalina da boca de mercúrio direto ponha na metade da caixa torácica que recai sobre o topo do estômago – a região que se sabe é onde sentimos angústia – não sei se tem a ver com a bile negra mas não quero que tenha.

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Os geólogos recomendam chamar rocha, não chamo porque é pequena.



se a sujeita for questão de referente, assim como o calor e sucessivamente o frio, na interlocução entre meu corpo repleto de óleos suores e sujeiras da falta de banho e a pedra, repleta também das situações mesmas, ainda que não dejete, o meu corpo venceria e a pedra a mim mesma.
 

e para onde

vamos agora?

domingo, 20 de setembro de 2015

não é difícil saber que acontecerá conosco: 
o vazio mirabolante, que a princípio 
não veremos, 
as coordenadas de pessimismo desajuste,
zoneamento apenas metade emocional 
a determinar todos os esbarros. 
comigo, irei a praia certamente 
e você verá, nesse ínterim, 
a crescente dúvida que logo se transforma 
em certeza alucinada de que nunca
nada valerá a pena, 
mesmo a considerar 
o recorte desapegado 
das nossas estreitas almas. 

e eu, a despeito de saber os resultados compulsórios, 
faço, obcecada, leituras preventivas