- Boa tarde, Rose!
- Opa, Dona Moça!
- Não sabia que já era época de magnólias.
- Eu tenho um segredo, minha filha, que deixa as flores tudo assim bonita qualquer mês, qualquer tempo.
- Tem um dedo verde, Rose.
- Como assim? Dedo de outro planeta e essas coisas? Isso aí eu não tenho não viu...
- É outra história - e sorriu - Depois eu leio pra você. Mas Rose, por que você me chama pelo nome que chamavam minha avó?
- Ah Dona Moça, você tem um jeito dela, que me lembra, um piscar parecido, uma mania de esquecer das coisas, das pessoas... Me lembra muito, hoje até veio um rapaz aqui lhe procurando.
(Rose de uns anos pra cá vinha criando hábito de entrelaçar assuntos de fitas diferentes, em cor, textura, comprimento)
- Que rapaz, da revelação de fotos?
- Não, aliás, esse veio também, mas o que eu falo é outro, um Otávio... Antônio? Amaro? Um nome assim...
(Ella corou, as maçãs brotaram em vermelho-ficção, como se verão súbito tivesse feito-se em suas faces)
- E o que ele disse?
- Ah Dona Moça, ele estava meio... como sua mãe costuma dizer, transtornado sabe, mas de um transtorno calmo, só quem sabia era eu, porque eu sei quando vocês estão com as coisas lá dentro que se escondem dos olhos.
- Mas Rose...
- Deixa eu terminar menina, essa é a diferença, sua avó não era tão inquieta, você parece que tá sempre indo de trem pros lugares... Por isso o rapaz, Francisco, perguntou se podia esperar, eu disse que podia. Ficou lá sentado com cara de ponteiro das horas, que a gente não vê mudar se prestar atenção. Depois sua irmã chegou, ficou conversando lá com ele, que tinha feito um desenho na escola, pintado, tinha enrolado massinha verde e azul... Chamou ele pra ouvir enquanto ela treinava a música no piano. Entrou lá no quarto de vocês duas, ficou tagarelando, disse que estava dormindo no seu quarto porque tinha medo e era até melhor pra tocar.
- E então?
- Então, depois eu não vi muito, fui atender na porta o rapaz das fotos, que trouxe seus negativos tudo revelado, pendurei lá na janela junto com os outros e ele ficou olhando, o Gilberto... acho que era esse o nome.
- Do rapaz das fotos?
- Não, esse foi embora, falo do outro, do seu.
- Meu?
- Enfim, ele consertou seu violão e disse que ia embora, falou que já tinha descoberto. Eu perguntei "O que?", e ele "O que eu vim pra entender". E foi.
- E foi?
- E foi.
- Assim?
- Assim.
- Mas o que ele viu? Foi nas fotos? No violão?
- Ô Dona Moça, preste atenção nas coisas, foi no seu coração.
- Ai Rose, fala assim não, fica parecendo coisa dramática, clichê de novela.
- De novela eu não sei, mas o rapaz veio aqui e deu de cara com o que nem você mesma tem coragem de encarar, mocinha, ele reparou com calma em toda a confusão que faz você viver assim, de trem, pulando vagão, fugindo.
- Será que ele cansou?
- Acho que sim, mas já tardou, o céu tá da cor do seu cabelo, entre que eu faço um chá pra você.
(Rose foi andando pra fora do jardim, Ella buscou desesperadamente o ponto de desenlace, e ofegou, e morreu um pouquinho, e se desfez em terra e adubo vegetal).