domingo, 11 de março de 2012

acabou vírgula chorare

Eu sei bem poucas coisas na verdade. Como por exemplo, na hora de contar, sempre fico em dúvida de que pessoa, do número único ou genérico, do fonema exato pro s, do uso do artigo, do melhor lugar pra se desestabilizar,
de não parecer,
de exercitar esses prelúdios nascidos pra não acabar.
As vezes eu acordo meio redação de ENEM e acho ridículo proferir qualquer palavra, inteiramente desnecessário não fugir ao tema,
e saber que mandar beijo depois de malograr presença é meio coisa errada.
Mas de qualquer modo eu só queria um chico de farmácia e podia estar mais pra Bukowski também, embora eu já tenha quase 17 e depois disso fica um tanto patético.
Ou mais brando assim Salinger, pode ser.
Tava cantando sobre falta de mar e vinho, embora eu só tome cajuína e essas horas fique por aí de óculos e Mafalda. Apesar da teoria, hoje só a literatura me bastava, 'to sem juízo de valor e o apreço pela estética anda maleável, só um chorinho de letra já resolvia na verdade.
Tem uma igreja por aqui e umas crianças de poucas roupas que se desengonçam e entrelaçam seus cabelos desgrenhados em profusão, as gordas mães se soltam e estalam a perda de si gritando para ordenar a prole, agora são ovelhas com pele de cacto que vão arranhando os seus solos visuais a cada raio e por fim não lembram mais do infinito ar que havia antes de as preencherem.
Imagino que deva ser meio ruim ser cachorro de doido, mesmo você com sua vida de menosprezar a complexidade alheia há de convir. Na rua de baixo um moço chuta o ar e ofende com seus cotovelos os microrganismos que pairam desmerecendo a gravidade, ele está certo de que algo bom virá mas não gosta da ideia por tratar-se de desconhecido. Fica sentado com as pernas abertas pras ruas e espera que voltem todos os assovios que já enviou. Ele tem um cachorro que parece acreditar, pelo menos o encara como se esperasse, e a gente não espera o que não acredita, a gente pode até querer mas sabe que não há razão e passa a rejeitar a ideia pela simplicidade do absurdo. O cachorro não, ele vive em função do fado prometido pelo seu dono, não se distrai, suas mínimas ações são condicionadas pela sina maior e ele apenas se encarrega do que convém para si.
Ouço a voz da desimportância clamando para se integrar em casamento aos meus conceitos, durante toda vida foi feita amante.
Já posso medir a altura do meu desencontro em comprimidos.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Introdução à bula

Não admito enredo sem embasamento querendo contar a história da humanidade. A humanidade se criou pela pedra, claro, isso não há quem negue nos dias verdadeiros (tristes). Contudo, há de se considerar os afortunados desmembramentos, as contravenções referentes à boa criação que Pessoa exauriu-se ministrando a mim, os momentos de calma, de intersecção, de doação, e de dor.
De qualquer modo não há boa forma de dizer com palavras certas coisas das quais nossas unhas reentranham-se em fuga e nosso coro cabeludo emburaca-se todo, elevando os pinos que seguram esses fios de ineletrecidade orgânica; portanto recomendo apenas a leitura se esta se fizer por fins desveladores (ou que se propõem a), e que por isso ela seja tragada de supetão, e que façam ouvidos gentis às minhas expressões vulgares que se vendem a atuar exploradamente sem que ainda assim se tire qualquer proveito delas.
O caso é que a desimportância que bem-aventura meus serenos dias trouxe-me um envelhecimento fugaz (mas por ser jovem ainda e não saber de nada, espero que perdure). Envelhecimento oriundo da aceitação de certos fenômenos irrelevantes que se farão companhia minha enquanto o corpo que alugo traduzir-se por mim à fim de se relacionar com o universo conhecido.
Nesse contexto de calma, é de bom tom cruzar dados com os dias a esses derradeiros. O histórico de informações é bastante válido e bem referenciado, apesar de sugerir defeitos da má utilização porque outra forma não há e em vida meu principal propósito não é viver. Entretanto, uma visualização superficial denuncia que em todo momento houve clara exposição do que havia e do que poderia estar por vir em meu papel, assim tão óbvia e previsível que nem sequer me preocupei em pentear os cabelos, crente que o trato dado não abriria precedentes inimagináveis.

(peço aqui, ao fim do começo, porém temporalmente anterior à criação do texto, que os senhores perdoem meu tom de falso samba. é que meu coração, prognóstico, quer ser astronauta quando crescer).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Alguns assuntos acabam exasperadoramente pra nunca mais, como quem (elemento personificado) possui, por princípio, finalidade de determinar a desistência da ação-convívio entre as pessoas. Se ainda fôssemos alinhados eu não teria percebido que a natureza existencial dos nossos diálogos circundava a área que, inevitavelmente, seria superada com o afinar em dó maior da nossa, outrora súbita e desesperada, intimidade. Se não tivéssemos transgredido a linearidade dos nossos polos interativos, talvez estivéssemos prostrados numa cadeia de especificações acolhedoramente comuns a ambos, que não só não dizem nada aos outros enquanto assunto, mas principalmente, que não dizem nada sobre elas mesmas enquanto razão de vínculo.
Desse modo, eu teria poupado um número considerável de rotações arrastadas pelo peso da incompreensão diante da nossa delicada indiferença, nas quais ensaiei diversas soluções para o caso (que em grande parte envolviam o adotar da culpa ou o auto-desconsolo). Nunca compreendo o que é comigo, nada do que é comportado pelo cerne do meu ser se mostra tolerável se regido pela razão. Consigo apenas aliviar-me minimamente da agonia enterrada quando descubro precedentes equiparáveis. Meu analista segue as normas da ABNT.
Todavia, não é o que vem ao caso. Concluo o ciclo do escuro pós-ocaso com paredes indispostas na casa onde eu aprendi a ler, toda melancolia habituou-se a incidir perante aquelas vidas vazias que compartilhávamos perdidos. Só havia as deformidades dos rejuntes cor-de-cobre que refletisse. Era silencioso e o eco duplicava a margem de erro das minhas insanidades audíveis.
Depois que li o passado entre nós, narrado por outro, cuja história não nos incluía apesar de ser-nos, tomei ciência da possibilidade bastante simples que não havia me ocorrido por falta de discernimento.
Os assuntos acabam exasperadoramente pra nunca mais evitando assim que o mesmo se passe com as pessoas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Argumentação Hostil

Trata-se de inerente necessidade, por não ver forma de explicar(-se) ou sequer de não fazê-lo. Trata-se de uma busca corrosível, oriunda de veneno este, universal por si. (a partir do hemisfério flor, ou côté jardin, como diz-se). Trata-se de adivinhar mil álibis, e perder com isso um tempo que sirva para ser buscado ao tardar do sofrimento, quando côté coer industrializar fatidicamente o vizinho errôneo (em falsete). Trata-se de uma ojeriza rastejante que se alarga a medida em que aprofundamentos necessários respondem incorretamente aos estímulos pagãos. Trata-se (e assim, como em toda a vida, volvendo à anteriores t(r)ópicos, sempre sem/n( )hora) de ininterruptamente alcançar os níveis da razão que se prendem justamente (e de outra forma, todos sabem, não poderia ser) ao averso de si, cedendo inacreditável e sarcasticamente uma ponte ao insolúvel.
Trata-se de saber languidamente da calma e dessa forma não deixar o que dela foge magnetizar-me.
Trata-se de falhar pateticamente na primeira tentativa de justificar-me compreensivelmente, e trata-se, principalmente, de não justificar-me, pois dessa forma ainda tento qualquer outra coisa perdida.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tiago tem pés de hobbit


Tiago pegou um passe que previa o traçado desses trilhos mal fixados, sentou no vagão, percorreu as estações orgânicas de uma catalepsia endócrina, num metrô fantasma que engarrafava impedido pelo ar. As narinas de Tiago perceberam que havia dessas completudes plenas onde o deserto de pano composto por faces padronizadas deixava acumular a poeira caída de qualquer forma na superfície de si, para transpirar os fungos da sua invalidez crítica. (tive medo de que amanhecesse em silêncio e por isso minhas frases nunca findam, agora o céu clareou em catalão, sobre a vigília do amanhecer que seja dito: suas vírgulas são de tons pasteis, seus cheiros desinteressam as correntes de ar prostradas nas algas sublunares da minha janela, o vidro escarlate deixou recado, fujo do tema, e nunca sei voltar). Tiago apunhalou os cálices de sangria que embebedavam criaturas neo-under, as tais cuja fúria temperou tempestade desemparelhada: determinou uma nova geografia para onde estivesse fincado; como a não responsabilizar-se pela inadequação do mundo seguindo a extensão dos seus passos, Tiago assumiu que a idiossincrasia pertencia aos seus pés.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Necrose



Restam duas gotas de café na xícara, e ainda há fumaça, restam duas gotas de engano que não quer desilusão. O que me leva a crer que, se eu ainda tivesse uma garganta; qualquer uma das que já tive me bastava na constatação; se eu ainda tivesse uma garganta (e se ainda fôssemos amigos) ela estaria desenganada como as coisas que se tornam estáveis pela ação do fogo, 11 minutos, necrose.
Se ainda fôssemos amigos eu sentiria falta da necrose, nem sabendo que ela estaria por existir num novembro.
Acho que é narcisismo elucidar a culpa pronominada a mim, quando nem eu mesma a me dou, só o verbo, quando desfaço os ramos de entrelace que desenvolvem qualquer fúria alegre das dunas nervosas, se eu dissesse "coração" seria brega, o meu é.
Há rumores determinando que não passa de comoção natalina (e de ano novo também), outros precedem 2012, lá na Dinamarca há quem fale a respeito de um planeta melancólico que para alguns passou pela Terra, e para outros, através dela.
(enquanto isso eu estive numa cabana de galhos).
Me presenteei da perda nesse ciclo (polar), tudo o que se ganha serve para retirar de si algo em desagrado, um hábito, uma situação, um tédio; retirei de mim presenças cujas obsessões começaram a me afetar derradeiramente, e comigo nada tinham em comum, agora sou livre até para sentir falta delas, sabendo que não as quero.
Parece triste porque sou, ademais, estou sinceramente bem.

And this old
world is a new world
And a bold world
For me
(...)
Oh freedom is mine
And I know how I feel

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

No caderno: 27 de outubro

o caso é de condicionamento, é isso o que problematiza. não encontro chez moi, no entanto, há um constante investimento na busca por onde a perdição se desnovela. problema é, que não contente em desajustar algumas linhas, preocupo-me com a solidão das outras, que não alcançarão felicidade caso sejam maioria em exceção. todas as linhas necessitam desordenar-se se uma ou duas o faz. as veias da insanidade etílica não resistem a explodir ao mesmo tempo para que haja somente uma semi-vida após a toda-morte, reparar não se faz questão. queria uma taxa de sobre-vida em vez de qualquer outro termo. mas veja, quanto a isso, se o digo e calo, esqueça, acaba(rá). arcadismo é pra quem tem medo de continu

sábado, 3 de dezembro de 2011

Feliz aniversário para o menino arrigo

Seria necessário captar um idiossincrático estalar de felicitação para dizê-lo. Seria, portanto, cabível de dividir, tal qual Maquiavel, em pequenas doses, condizente com esse evolar-se de ideal felicidade transmitida, capaz de elastificar-se e adaptar-se quando captado pelas fibras nervosas dos sentidos felicitáveis, de acordo com a necessidade (e tal qual necessidade é, assim, desenrolável, maleável - para si -, intransigentemente transeunte de si mesma). Seria assim, impossível dizê-lo, mas o digo em tentativa, por outra forma não vislumbrar: ao meu querido amigo arrigo, que fincou-se ágil nas mais altas instâncias dantescas do apreço, um parabéns por ser, não só no júbilo de sua existência (nesse também, e incontidamente), mas pelo estar alcançado, cujo reconhecimento opera um regojizar-se instantâneo na mente de quem partilha a sua convivência.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"Os pontos de interferência destrutiva, nos quais a corda praticamente não vibra, são denominados nós, e os pontos de interferência construtiva, nos quais ela vibra com amplitude máxima, são chamados de ventres ou antinós. Para uma determinada frequência, os nós e os ventres da onda estacionária assumem posições fixas."

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

terceto anti-nipônico

Como se estocam torrentes,
nossas peles transparentes
são transmutações latentes.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

roteiritinerario

ganha-se aço/ação, aflita, convicção. dão-se espasmos, labirintite, nervotórax chacinado. a(ssa)ssino fronte, frente, falsos feixes, finos fluidos, fúteis fossas, farsas fúnebres. que haja um ato descompacto. ápice degenerado. reumatismo mastigado. fobias desacompanhadas de pré-fixos que encerram, cito de coeur, não há sequer, não há. aceita-se um prelúdio, cujo ser adivinha razão de. aceita-se que seja e que por isso, nada mais.  algumas coisas têm certo ligare que surpreende uma ausência de estar, pois esse desnecessário é, após fartas ficarem de seu exasperador ser. uma mente que domina certas minas de neuro-atos é como anarquismo, auto-governo. por buscar musical idade num contorno de efemérides, distração me foi além-fortuita, trouxe à mesa o que se chama de desespero, e que no entanto, trata-se do 'viscerar' dessas esperanças mórbidas que a gente costura quando as apropriadas já se foram ao seu tempo. comecei querendo dizer algo, mas logo vi: inadequava-se, esqueci-o. minha memória de cortes e edições, um ser mutante de cujo estar partilho, minha memória infante, avant, avante. disse algo?

mas logo vi: inadequava-se, esqueci-o.
o cito agora, todavia, não de coeur. não há, sequer.

domingo, 16 de outubro de 2011

Recuso-me a fazer poema sobre isso.

Se essa calma que me tomou agora lateja, não é por sujeito; predicou-se a ela uma situação des(conectada)de determinado pronome de duas pessoas, que fazem parte de tudo o que eu não sei ao certo; primeiras pessoas, segundo ato; participação espa/ecial encerra o monólogo. Acredito nas mãos, nos antebraços, na clavícula; em suma, creio no meu alcance que espera verter-se verticalmente; se(n)tido discordando da gravidade.
Sempre confiei na discordância.
Posso iniciar a conjugação de verbos usando esse inesperado pronome, pessoal, porém nada casual ou retilíneo, que confere somatória ao meu umbigo?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Orfismo

O âmbito latente que abriga
e encerra nossas vilosidades reflexivas,
é de um todo desordem.
Vivências mnemônicas descerram
entre e sobre si, compartilhando poros afetivos,
uma irônica austeridade, descabida,
que não vê, não alcança,
frequente rotação buñuelica,
farta de coexistir com a própria insistência.
Assim são nossas construções íntimas,
fincadas em traçados volúveis,
que por dentro se dão pelo abismo,
e adiante, sem que se possa adivinhar modo,
erguem-se.
São extensões da memória,
profecia do labiríntico senhor.
São de um modo este,
que nem a sépia envelhecida dos tempos,
nem as sombras transgressoras,
tampouco as muralhas de cobre,
ou infinitas perdições, pontuais, obscuras,
são capazes de verter camuflagem ofensiva.
As construções fincadas acima das nossas cabeças
têm acesso estruturalmente urgente,
elas nos resguardam, e erguem-nos,
foram concebidas de sabedoria concreta.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Remetente

Aos pés que descaminham ao meu lado, aos dedos que se situam desemparelhados, aos ouvidos que captam fibras do meu tímido estalar, aos fios enovelados que transcrevem um sentir (e em seu quase desenvolvimento à beira do simétrico, minhas ações mal calculadas, atuações desordenadas, ficções mistificadas), às unhas que tactilmente não ousam cessar memória incerta, (e portanto, à toda essa memória incerta que atinge a si mesma em seu ápice desregulado para transtornar um remanejo aflorável), (inerentemente, ao silêncio de Paul Simon e aos pés do Clube, que na Esquina penhoraram da dor o que havia de alternância), ao mito da realidade, à falta, à culpa, ao timbre indesculpavelmente esquecido, aos sorrisos interceptados, às ilusões infiltradas, à tensão descarregada, à existência, (e principalmente, à sua).

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Junção de alguns rumores desconexos acerca de certo estado de espírito que me tomou

"Depois do café da manhã, as duas babás empurravam o carrinho ao longo do terraço; enquanto o empurravam, conversavam - não trocando bolinhas de informação ou passando ideias de uma para a outra, mas rolando as palavras na boca como confeitos, que, tonando-se cada vez mais tênues e translúcidos, soltavam o seu cor-de-rosa, o seu verde, a sua doçura."

Entre os atos - Virgínia Woolf

"Virginia largou a bengala, enfiou pedras nos bolsos do casaco e entrou no rio. Deixara, em casa, cartas para o marido Leonard e para a irmã Vanessa (que morava a poucos quilômetros, na Fazenda Charleston). Nas cartas ela explicava ter certeza de estar ficando louca novamente."

 Antonio Bivar, Membro do The Virginia Woolf Society of Great Britain


Efeméride mesmo é acordar desejando não fazê-lo e de súbito, após retornar ao sono, ser desperta pelo sonho em si, que suplicante, não suporta a própria existência.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Relato de sonho de Ella Z.

- Boa tarde, Rose!
- Opa, Dona Moça!
- Não sabia que já era época de magnólias.
- Eu tenho um segredo, minha filha, que deixa as flores tudo assim bonita qualquer mês, qualquer tempo.
- Tem um dedo verde, Rose.
- Como assim? Dedo de outro planeta e essas coisas? Isso aí eu não tenho não viu...
- É outra história - e sorriu - Depois eu leio pra você. Mas Rose, por que você me chama pelo nome que chamavam minha avó?
- Ah Dona Moça, você tem um jeito dela, que me lembra, um piscar parecido, uma mania de esquecer das coisas, das pessoas... Me lembra muito, hoje até veio um rapaz aqui lhe procurando.
(Rose de uns anos pra cá vinha criando hábito de entrelaçar assuntos de fitas diferentes, em cor, textura, comprimento)
- Que rapaz, da revelação de fotos?
- Não, aliás, esse veio também, mas o que eu falo é outro, um Otávio... Antônio? Amaro? Um nome assim...
(Ella corou, as maçãs brotaram em vermelho-ficção, como se verão súbito tivesse feito-se em suas faces)
- E o que ele disse?
- Ah Dona Moça, ele estava meio... como sua mãe costuma dizer, transtornado sabe, mas de um transtorno calmo, só quem sabia era eu, porque eu sei quando vocês estão com as coisas lá dentro que se escondem dos olhos.
- Mas Rose...
- Deixa eu terminar menina, essa é a diferença, sua avó não era tão inquieta, você parece que tá sempre indo de trem pros lugares... Por isso o rapaz, Francisco, perguntou se podia esperar, eu disse que podia. Ficou lá sentado com cara de ponteiro das horas, que a gente não vê mudar se prestar atenção. Depois sua irmã chegou, ficou conversando lá com ele, que tinha feito um desenho na escola, pintado, tinha enrolado massinha verde e azul... Chamou ele pra ouvir enquanto ela treinava a música no piano. Entrou lá no quarto de vocês duas, ficou tagarelando, disse que estava dormindo no seu quarto porque tinha medo e era até melhor pra tocar.
- E então?
- Então, depois eu não vi muito, fui atender na porta o rapaz das fotos, que trouxe seus negativos tudo revelado, pendurei lá na janela junto com os outros e ele ficou olhando, o Gilberto... acho que era esse o nome.
- Do rapaz das fotos?
- Não, esse foi embora, falo do outro, do seu.
- Meu?
- Enfim, ele consertou seu violão e disse que ia embora, falou que já tinha descoberto. Eu perguntei "O que?", e ele "O que eu vim pra entender". E foi.
- E foi?
- E foi.
- Assim?
- Assim.
- Mas o que ele viu? Foi nas fotos? No violão?
- Ô Dona Moça, preste atenção nas coisas, foi no seu coração.
- Ai Rose, fala assim não, fica parecendo coisa dramática, clichê de novela.
- De novela eu não sei, mas o rapaz veio aqui e deu de cara com o que nem você mesma tem coragem de encarar, mocinha, ele reparou com calma em toda a confusão que faz você viver assim, de trem, pulando vagão, fugindo.
- Será que ele cansou?
- Acho que sim, mas já tardou, o céu tá da cor do seu cabelo, entre que eu faço um chá pra você.
(Rose foi andando pra fora do jardim, Ella buscou desesperadamente o ponto de desenlace, e ofegou, e morreu um pouquinho, e se desfez em terra e adubo vegetal).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A culpa

Em mim pesa demasiadamente, proponho que a partilhemos. Praguejo um pouco. Hostilizo sua imagem. Me perco pré-concebendo uma constituição inteira do que deve ser cabível à casos paralelíssimos que não ousam revelar assombrosa semelhança. Danço os dias a formular razões para não, razões para por outro lado, razões para ser preciso considerar, razões para um talvez, razões para um sim se for desse modo. E giro, rodopio, sigo, me estranho e me nego a mim mesma, visto que assim jamais me quis. Tenho toda certeza e a perco, abruptamente. E de novo vem a culpa, de trem azul, de camisa quadriculada, de uma maturidade velada. Ponho-na imediatamente sobre suas mãos, (não sobre as costas, sobre as mãos pois assim a vê, e quem sabe me convida à dividi-la, levá-la para tomar sorvete). Sartre ri, e comenta com Simone (que me olha desaprovando, esperava mais de mim). "Sabes que ela é só tua". Sei. Já viver com isso, não.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

pele(ícula)

estou considerando um novo blog, para falar mais arcadicamente, e falar mais, e falar menos. Estou considerando uma nova disposição de maiúsculas, para cartas, emails, chamadas e dedicatórias... Estou analisando um novo perfume, novos autores. Estou ouvindo outras músicas, que contratempam síncopes, estou dormindo mais e comendo menos, e acho que isso vale pra tudo na vida. Ando querendo migrar radicalmente para um estado de suavidade súbita, ser molecularmente pianinho. Ando a fazer listas físicas, esquecendo mentologias, substituindo citações por junções. No mais, me felicito de prazeres tão íntimos quanto inexplicáveis, ao tomar certo ônibus que n'outra ocasião me levaria diretamente ao interior do desconhecido, mas saltando fora paradas antes, sempre com motivo e praticidade em mãos, e alças, sempre sozinha por não mais compreender a necessidade de alguns do outro. Quero ver se dedilho mais umas areias com os dedos dos pés, sem assim gelar o coração de tristeza nascente e dessa decepção desprezível, que a mim não cabe e a quem resolvi não citar é injusta. Quero ver se vou embora ver uns céus que se desprendam de tontura alérgica, quero ver se não me importo mais, e se paro de pensar, porque já faz um ano.
E alguns meses.
E só faltam sete.
E alguns dias.
E eu não quero mais achar que estou assim, completamente descabida, como era dito por bela e sebastião, e eu achava que pra mim, lá pelos 13 anos.


The wrong girl
The wrong kind
The wrong hand to be holding
The wrong eyes to go searching behind
The wrong dream to have on my mind
E a gente sempre espera que 3 anos depois esteja mais esperta, ou pelo menos, que a identificação não seja tão completa assim...

ps.: ando fazendo textos ruins, e transformando em texto ideias ruins, o que dá quase no mesmo

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Agonia número 200

Renunciei a Lóri, a tudo. É bem verdade que essas platonisses inexplicáveis se dão corrosíveis condecorando porte, aspecto, perfume, cabelo, expressão, linguística. Tudo lembra, mas a mim, em tudo, e mais que tudo, esquece, portanto.
Lóri sabia, tinha muitas certezas dessas embebidas de perenidade, minha perenidade única é a ausência, o desconhecimento por vezes amplas e a incerteza que não vai embora, que não mandarei ir, que aceito comigo porque ao contrário da sua memorabília decorando a casa onde moro sozinha, é real.
Visto isso, faço suas malas, e vou pondo em fila, pegue-as.


(é que antes eu ia embora, mas voltava, porque achava que, distraída sempre, havia perdido algo que explicava a ausência de necessidade de explicação, mas agora flutuei em distância, perfurei a bolha e vi que prefiro, por ora, não retalhá-la, aceito o risco do externo, no entanto, você precisa sair de mim)

domingo, 19 de junho de 2011

Mais uma razão

Porque é necessária a toda ideia uma base, que além de representar no esclarecimento a síntese entre o reflexo de si e a descoberta das potencialidades existentes na sua apropriação (im)própria do dito sentimento, alimenta uma quebra fatídica no novelo de raciocínio, desabotoando a sinfonia em espiral.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

(sem) Razões

De mim reflete vícios, vísceras, maçãs do rosto, abismos epiteliais, ornamentos neandertais, rendimentos fracionais, desalentos inversamente proporcionais, ou quiçá tão iguais que a menção não se deu no gesto.
Contaminada por um "não por isso", me aflinjo em pronomes, impaciento transmissões ruidosas, aniquilo a lírica, teletransporto ideia-inseto para qualquer blues forçado, e em seguida, dotada de um Machado e um par de cegueira, desorganizo inutilmente passagens de ar.
Espero por costume, por precisar, por ímpeto, espero porque o que resta não me satisfaz, e sofrer com a degradante auto-análise diária fede, fere e ferra.
Espero porque minha juba cresce a cada derradeiro desaparecimento solar, e os que existem têm sido tantos que passei até a me propor com gosto compartilhar das suas inexistências breves.
Espero porque me consome, e como tudo o que há, e que age, me mantém dispersa das minhas primeiras pessoas egocêntricas.
Espero porque sou banal demais, e também por isso o achei, tampouco poderia ser de outro modo o pós-desenrolar prematuro e anêmico.
Espero por não exasperar motivos, por sabê-lo e de certa forma não poder dizer o mesmo das minhas acomodações próprias pelo território mnemônico.
Espero por achar perturbadoramente inconcebível a real situação na qual vagam quase 20 relatos infindavelmente perseguidores, sobre algo que nunca existiu.
Espero porque não vai passar.
Espero porque só eu vou passar.
Espero porque me habituei a fugir da fuga.
Espero porque vens.

sábado, 11 de junho de 2011

eu acho que acabou.





(novas inspirações, se igualmente traumáticas forem, prefiro que não existam)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

profissional

Cara Dra. Wendy,
Faz pouco tempo, não lembro ao certo, mas havia o disco verde, havia uma profusão inimaginável de versos, que dançavam sobre a minha agonia, havia o que se previa, o nosso amor, a pauta... e a puta.
Estávamos numa concordância de densidade eterna, chovia um zumbido compacto de acalanto, nossas frases eram em uníssono, e minhas unhas sentiam prazer em tocar até concreto quente, era a decadência que nenhuma corrente Spinozista poderia supor.
Nesse meio tempo, sem que houvesse espaço para conhecimento público dos fatos devastadores, ela surgiu. A puta. Não era uma profissional propriamente dita, sobre o nível da sua ocupação nada tenho a declarar pois nada sei, mas ela veio e lavou meus devaneios ilusórios, tornou obstantes minhas sinceras explicações.
Todavia, não era dela que se tratava, era ele, o salto 30 que pertencia a puta perfurou minha mente, porém, ao ser arremessado pelas mãos amadas, e todos sabem que a única forma de curar uma violência metafórica é extirpá-la de Platão, convidando-a à existência física.
E assim o fiz, matei Alberto.
Fui justa, no entanto, agora dizem esses seres cheios de vírgulas que puta não havia, salto era escasso, tudo fora criação auto-destrutiva. Não creio realmente, mas vez ou outra a ideia da loucura me aparece em devaneio.
O que a doutora acha?

Um abraço,
Carolina

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Porque nº 1

O problema de me ver escrita nas tuas palavras mudas é que, quando me encontro em algum lugar, fico querendo achar ali pra sempre espelho.

(porque nº 2)

O problema de achar ali espelho é que eu posso estar vendo reflexo em auto-retrato riscado de giz.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A assembléia nocauteada levantou-se e despiu do nariz sopro de oxigênio em solução, fez-se assim sã tal como pode e em uníssono com suas existências

mal dissimuladas corou ao decorar uma brochura/livro/bolso/escritor, testamento ocultado por um incômodo ficcional.

te(r)mo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

te contar da minha vida bem baixinho ao pé do ouvido sem vírgulas pausas ou fim pra ver se vira simpatia ladainha interminável e a coisa toda revive de um jeito mais certo que o jeito sem nexo sem traço de dança alguma que já era antes de eu saber de mim e de você e da gente tudo almalgamado nessas cordas vertebrais de si bemol etanol arterial nos caracteres do meu peito nariz nuca cabelo desses fatos salteados de sentimentos desorientados que eu conto e depois nem sei se fica se esvai como em mim seria perfume e então só a memória de afetos e atrasos e descordenadas descarteanas tudo isso pra ver se você fica muito mais um pouquinho aqui e frui comigo essa existência mal executada verbos pseudo transitivos indiretos numa quarta feira semi nauseada de conforto e barbárie.

(porque pra que desenrolar arame de caderno já feito, esse backspace denuncia)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Palomar é todos nós - relato


Palomar é um livro que entra primeiramente pelos poros, fazendo o sangue que percorre a pele tomar pouco a pouco um semblante de escassez (para os que vêem rostos dentro de dentro de dentro de si), devido à diminuição em porte dos vasos sanguíneos. Com isso os poros são reduzidos, ativando o músculo eretor do pêlo que exerce sua função, como se as reações biológicas tivessem tornado-se abruptamente possessivas a ponto de necessitar isolar o corpo do contato externo, apreendendo só para si a informação recém chegada.
Após o contato pele-palavra, pode ser observado que (se considerarmos que os livros vivem enquanto são lidos, no intuito de dizer a cada leitor com sua individualidade indefinível o que há neles - livros - que melhor cabe a ele - leitor- ) Palomar deixa claro que precisa ser lido, a relação de posse estabelecida pelo corpo assim se faz por outra forma não haver, e com isso torna-se caracterizada de uma intensa reciprocidade, instituindo uma situação em que as palavras de Ítalo Calvino parecem agir propositalmente como se tocassem o nervo mais sensitivo do inconsciente, que sempre bastante transtornado pela ausência de auto-conhecimento, apega-se num nascisismo vergonhoso ao que pareça desvelá-lo diante de si.
E é a partir de então que desvelar torna-se o verbo-chave da leitura, Sr Palomar (agora não mais o livro, o personagem) é o nosso tempo, a nossa sociedade em sua forma de fazer conhecimento, nosso contexto acadêmico com sua beleza e suas infuncionalidades.
Nosso personagem é um fotógrafo da filosofia, com um olhar e uma disposição à princípio inovadores, interesses bastante diversos, intenção sempre de conhecer, e de um modo geral, a vida como campo de estudo.
Ele age como fotógrafo ao mostrar-se bastante eficaz em expor o que está perdido na paisagem (seja ela visual, sonora, linguística ou reflexiva), e quando finalmente encontramos o Wally que o Sr Palomar observa, somos levados a refletir sobre a forma como aquilo é pensado.
Embora tenham tudo para dar certo, as reflexões do Sr Palomar acabam se perdendo durante seu desenrolar, muitas tornam-se exaustivas para ele mesmo, pois seus objetos não parecem capazes de se conectar a uma conclusão, ou por gritarem silenciosamente (e com muitas vírgulas) que adentrar cirurgicamente no elemento refletido não responderá as perguntas fundamentais do mesmo, e separar a onda do mar não vai dizer absolutamente nada sobre ela, apenas o mar inteiro, amplo de seus elementos bem coordenados, vai esclarecer a existência da onda.
Para mim Palomar desvela o câncer de uma estrutura acadêmica que não ensina a relacionar conhecimento, a ver a vida como um todo. Uma estrutura que nos acostumou a adjetivar de profundo até o que é interessante ironicamente por possuir uma visão abrangente, a mesma estrutura que leva seus alunos a rejeitarem o que é plural, formando pessoas que descobrem gostar de determinada disciplina na escola e a partir daí pressupõem que não precisam ter conhecimento de nenhuma das outras, um mundo de futuros estudiosos do fungo nascido na orelha esquerda do bicho-preguiça que mora região central da ásia e que à exceção disso, vai se contentar com seu desconhecimento e incapacidade diante de tudo na vida, pois nunca achou necessário pensar nem sua própria condição.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

pessoal

E se o teto desabar debaixo de tanto cinza, se as águas verticais adentrarem num frio incondizível, descabido, se por dentro está mofado e abafado e afobado e enfadado desse desdizer desenrolado no qual todos resolveram se prostrar.

E dizem que é porque é bom, dizem sem dizer, sabe? Não sei, se não dizem como posso? Inferência? Inferência não satisfaz, por isso toda conjectura é triste, e quando alegre é mais triste ainda, pelo peso que convém.

E se a minha meia felicidade vem de uma caixa de correio carimbada em Mankato, se eu fiz piadas mórbidas sobre ela ter sido levada por uma tsunami. Sobre sua demora: estrangeira, o ça m'est ègale do escritor francês com nome de sensor fotográfico acusou, é meio meu, quando nem Machado corta as vírgulas dessa existência agoniada.

Digo que vou parar, primeiro reduzir, reconsiderar, enxurrada de consoantes discursivas cachoeiram sobre minhas rédeas, estabilizá-las pra que? Em vez de esperar outra, apenos puxo, gatilho, massa, descalça. Digo que vou parar e reajo, dito, distraio, comparo. As vezes dá certo, certo certinho, certo com um s que convida "sem ser" pra ligar essa falta de predicativos vitais.

No entanto, como se não soubesse que o caso ainda não é acaso, de alguma memória submersa e icebergica continuo.

Quando me escrevo perdida (sempre estou), mas do que melhor se pode perder-se, e bem assim não encontro o que me receia até chamar por qualquer pronome nominal, sem pronomes me encontra, e faz ventar sobre meu castelo de baralho sensorial metodicamente estabelecido.

Aquele reflexo desemparelhado do espelho mágico deixou recado:

Clara, amanhã você vai magoar alguém.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Conversa entre duas metades de um mesmo subconsciênte na qual a primeira é o eu e a segunda representa o outro

O outro: vamos, diga-me o que te agoniza presa, incapaz de sair esôfago a fora.
O eu: não, está errado, se és meu eu mas finges ser o outro não podes saber que agonias habitam o seio da minha áurea.
O: então o que esperas que eu diga?
E: não deveria esperar coisa alguma, talvez por demais esperar porte esse infindável desconhecido entre as ligações nervosas do sistema biológico, ademais, questões que estarão por vir serão minhas, quero saber o que ocorre.
O: ocorre que há mil guilhotinas, e em cada uma difundem-se diferentes possibilidades, posso ser desregulado, passivo, temeroso, posso não acompanhar coisa alguma do que se instala nas entranhas do teu labirinto cefálico, posso por isso ser fraternal ou ausênte (mesmo presente, o que faz da ausência a mais cruel), posso por isso não poder nada, e posso mesmo assim a esmo por esperança poder.
E: trazer da terceira para a primeira pessoa minhas conjecturas não as tornam mais enxutas, renunciarei ao tratado.
O: ao qual? o da vida? este que está sendo escrito? o que fizestes contigo em segredo de si mesma?
E: por que me importunas? não vês que o que há aqui está no cerne da alma, mas somente da minha? e que tua presença de repente pareceu apenas motivo para desvelar reflexão de transcendência inerente?
O: não seja tola, se pudestes apenas relegar-me à periferia do pensamento não estaríamos os dois aqui à princípio, por desatino teu achas que as questões da alma, como dizes de forma muito infantil, são desconexas umas das outras, levando esse teu egocentrismo farto a elevar uma atrasada epifania ao palco.
E: paras de te auto-depreciar, perdestes a noção de que tu és eu? faltava-me essa agora, uma atuação pobre daquele outro tornar-se de repente metade repelida do meu subconsciênte, maior clichê não há.
O: acho que estás ficando louca.
E: acho que confundes-me contigo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O que por lei deveria não poder numa tarde vazia e transgressoramente ensolarada desse mês de abril

  1. Encontrar aquele disco de Cat Power, e perder-se naquela música do trecho encadernado/emparedado/ingerido estomacalmente;
  2. Olhar para as cordas desfiadas do violão e depois para as unhas, e para as tarrachas, e para os cabelos, e para a cor de folha seca, e o orvalho desregado;
  3. Cheirar o idioma das núvens com "Cl" e as listras cor de sebo, e as águas ao relento de remela;
  4. Perder a passagem e sentar, e sorrir, e felicitar-se;
  5. Achar um d de casa última na solidão
  6. Repetir interminavelmente o trecho perdido
  7. Memorizar numa solução o que se torna seu (que é de outro) e o que se dispersa (e já foi nosso)
  8. Esquecer
  9. Dispensar o objeto direto
  10. Desconvidar as vírgulas que precisam de um ponto para acompanhá-las ao evento
  11. Amalgamar referências, confundir lembranças, gelar ao passo em que as mínimas são capazes de erguer cada poro
  12. Gritar de agudo, por razão grave
  13. Calçar entre os dedos o começo de todas as palavras que começam com gr, correr uma onomatopeia raivosa
  14. Tentar usar um desses números estúpidos que carregam qualquer coisa muito maior

sábado, 9 de abril de 2011

Enamorando o personagem

Mr. Sweart não gostava do estar na sala. Achava Mórbido. Um cômodo cujo objetivo subconsciênte consiste em reafirmar (através de cada pequeno prazer descontraído e lúdico) o despropósito de que a vida é feita.
Para não perder tempo impacientando-se com desilusões, o prático Mr. Sweart optava por contemplar somente o inumano, onipresente, profundo: o inexistente. E fazia tal irônica atividade com compenetração e assiduidade, dedicando de todos os dias alguns segundos a achar perguntas no que ainda não havia, para suas respostas que jamais viriam a existir.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Didizismo

consta nas rachaduras
a cor é de inflamação
quando calo, perduras
sem remédio, sem solução
expõe-se o som do atrito
e por ora, evito
rimar tua condição.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cuidadosa

Cambaleei em curtos disparos, matei os rastros.
Reneguei estética como se fosse insana.
E ouvi de longe, muito longe, temperar impropérios.
Achei auspiciosas as pausas, dedilhei um desapego iludido.
Folheei uma sigla sem fim, disse morfologias impróprias, censuras sabáticas.
Esperei
esperei
esperei
Fui cuidadosa quase subconscientemente, no entanto uma falta de cor exposta habitou minhas veias, inferindo que ao acaso eu doava restos.
Maldita, apareceu-me trocando brancos por laranjas e citações que haviam demarcado todos os horizontes curtos numa só vida.
Fui cuidadosa não só por mim, mas pelo que havia de ser sendo, de ser sido, de solicitude posta.
Fui cuidadosa primeiramente porque era Hilstico, e em seguida não pretendia fazer de confissão induzida quimicamente bíblia.
Resolvi que não revisaria, não esperaria, não mais moraria, nem morreria, nem mesmo aos pouquinhos.
Diria que criei laços, mas há aquela crônica saussuriana que informou, se não o dizes, não serás.
Renunciei somente a um final semântico, para abordar a banalidade com T.

ps.: no fim revisei e tornei a estirpar artigos, outra forma não há.

sexta-feira, 25 de março de 2011

terço

(Texto perdido, escrito logo no começo dos meus 15 anos, encontrado agora, ao fim deles, sobre umas coisas que eu não sei se ainda sei sentir).

Todo transe pede por alguém, um cúmulo justificável, uma reação inerte estática no tempo-espaço, um outro de si que, inconsciênte ao seu modo e inteiramente obsoleto em qualquer verbo de ligação, exerça o livre jazir em leito fúnebre, em frio lúdico, ação conjurada.
E se nesse mesmo céu, eu ao teu ser, desfaço em trinta versos desnudos sentimento vergonhoso, se o mesmo (quisera eu que fosse o mesmo), sentimento injustificável, em ti parece santo, em teu deleite fresco e em teu ânimo, olhos de baunilha, listras verticais, um verde desarmado, tudo parece matéria virgem e leve, júbilo bárbaro.
Pois a mim, em mim é peso farto, cor saturada, é o mesmo, mas em outra de mil faces, é a complexidade do "para onde vamos" maior ainda que a complexidade do "para onde vamos todos", rejeição ao poema, apego à prosa, previsão inevitável do presente próximo e do futuro muito distante, experiência jogando pedras na janela para ser ouvida.
E um terço a mais da minha vida é espelho, de uma escancarada meninisse que eu jamais poderia exercer.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Conto do Mrs Mister, parte final, ou Sobre um alcoólico uso dos parênteses, ou mesmo, Confissão febril

Fez em alto e claro ruído, (mas dessa vez sonoro, não de iso), eu realmente, realmente, com total e absoluta certeza, (certeza essa que deve povoar espadas, coroas, documentos e pergaminhos das grandes mudanças), não preciso prover-me disso. Está certo que eu quero, sim, eu quero, já quis mais que tudo e posso continuar decrescentemente esse desejo (quiçá mórbido) até um findar calmo, desprovido de ininterruptos batimentos no sistema hematopoético (cujo nome não é ironia ou acaso, creio eu - firmemente). O grande alívio, (maior que todas as ridículas e infantis lembranças de coisas grandes que me ocorreram agora para ilustrar o pensamento), pode parecer patético, mas é assim que as coisas reais são, patéticas: eu não preciso querer o que eu quero.

domingo, 6 de março de 2011

Palavras-chaves para um discurso ridículo

  • Eu
  • Mainstream
  • Fotografia do filme
  • Indie
  • Vegetarianismo
  • Música de qualidade
  • Hollywoodiano
  • Deus
(continua pra sempre)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Coisas de janeiro

Senti hoje o aroma do mar salinizar minhas narinas na Várzea.
Edson Cordeiro sibilou jazzindo em tresloucamento súbito, a lua é um balão.
A madrugada da minha janela adquiriu uma mania nova:
findar infinidades,
e as nuvens trompetistas tocaram sinfonia belicosa,
esses azulejos iluminados por laranjas já diziam em mistificações,
meu futuro a Paul Klee pertence.
E quem irá entender frases dedilhadas por grãos de um chá hemisférico?
Sofra atração,
sobra histeria.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mar íntima

Márcia saiu para ver do mar um céu marciano, estranheza como ela, como tudo em sua natureza. Marte se fazia completamente divino e inteiramente salpicado de palavras dadaistamente intuitivas. Nada que fosse tão amplo havia nas faltas fartas. Ela agonizava da areia, estando em pé sob um acordeon, esta que vos escreve nem sabe ao certo se isto é de fato possível, mas posto que o desenrolar dos fatos configura-se tal como está, não é de um todo importante qualquer dessas noções de lógica ou veracidade, para Márcia havia pés e felicidade lacrimosa, felicidade dos grãos de feijão lutando contra o algodão ao sair no divino clarão. A frivolidade de umas arcadas violinais em notas graves para ouvidos febris de um sol não tão distante, essa cidade me incomoda, Márcia se vestia para passear na praia, Márcia só queria que um ônibus vermelho de três andares surgisse em pleno litoral pernambucano a toda velocidade e, estando ela preguiçosamente desprevinida, o choque fosse fatal, tal que seu sangue sem nasalidade jorrasse de um canto a outro no céu da boca da rua das casas da areia do mato do parto do quarto. Márcia morreu em três atos, vestiu-se para sair enquanto pisava num acordeon de um céu marciano visto do mar. Márcia morreu na areia, sonhando com um abraço cacheado. Márcia morreu deitada no tapete da sala, enquanto subiam na TV os créditos finais de Amacord. Márcia morreu onipresente com aroma de baunilha. Márcia morreu injetando morfina no próprio coração. Márcia morreu de amor.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Produção em gerúndio

Tempo longo quase um parto,

já nem sinto.

Em teus cabelos meu retrato,

já nem sinto.

Teu desenrolar confuso,

alegre, aflito,

sem nenhum tato,

já nem sinto.

Das tuas cores, meu corpo salpicado,

já nem sinto.

O desmembramento uníssono dos nossos portes inexatos,

já nem sinto.

Meu calcanhar inerte ao teu vulto pacato,

já nem sinto.

E por fim, fator santificado:

Tua presença se fazendo em meus anseios,

sonhos,

curtos devaneios,

já nem sinto.

sábado, 30 de outubro de 2010

parar e ser para não parecer

Gotas fartas, frutas passas, deleites bárbaros.
Película, superfície ilícita, meus anseios pacatos,
Aos olhos traços, membrana morta, roubei vãs sensações,
Suas unhas não sentem de verdade o calor do ato, o lençol morto nem o tecido mutilado,
O vinil arranha, o pêlo entranha, a retina se dilata,
Tá faltando alma, tá cheirando a carma,
É que eu cansei da prosa, eu já perdi as notas, me fundi ao cale-se,
Não me importa se lagosta ou não, se metáfora ou não, se há razão,
A única necessidade insolúvel é saber de novo "ir contra o vento sem flutuar",
Filtrar café é um mecanismo de defesa e
A loucura também.
Eu tenho muitas saudades,
Principalmente de você.

domingo, 5 de setembro de 2010

Conexão

E se num ácido conduzo molas, passantes, auréolas?
Cores elásticas brincam de sedução engarrafada, a noite dança com arranha-céus, aranhas em telhas, orvalho nos cabelos.
Olhos de castanha, tiros 35mm, lua americana.
Nostalgia improdutiva, frascos de ânimo, sonos anestésicos.
Pouco mais de vinte versos, orégano, pão doce e carnaval.
Minha memória é de afetos, ofego, descanso, acordo.
Leio fotogramas em vão, procuro em jornais algodão dos anos 90, fita crepe, estrela.
No princípio havia um sorriso, e a gente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre a vida ser longa, o mundo pequeno e as alegrias quadriculadas.

Cada vez que eu girava parecia
Que a minha perna sucumbia de agonia
Em cada passo que eu dava nessa dança
Ia perdendo a esperança
Só sei dançar com você - Tulipa Ruiz

Rodas gigantes batendo-se em série, lascas de tinta azul cordial fugindo dos seus paradoxos.
Grama incontestavelmente verde parte em simetria o território celeste, nuvens-fantasia e perfeição temática, verticalmente explode um êxtase luminoso. Perpendicular à vida e infinitamente desproporcional à sede de mundo, especula-se a nascente de tão amável placebo.
Sorrisos expõem-se duplamente, flores e estampas costuram o pano de fundo de uma orgia santa, meu niilismo fez o nada desaparecer.
Em seguida vêem-se pés triunfantes, coloridos, bem pintados, pisoteando o pesar, escondem nós desfeitos ao menor toque. Os pés do silêncio escuro da casa, seus pés cortando a sala, meus pés ouvindo o chiado da chaleira, pés invadem o corredor. E ainda resta a tese sobre uma realidade em sépia nos azulejos monocromáticos.
França, Recife, Nova York, luzes desfocadas, flash’s coloridos, manhãs ácidas, guarda-chuva.
Só podia ser domingo.
E onde ninguém tem nada?
É em todo lugar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Escafandristas

(...)
- Eu te vi correndo ontem, entrando num café, desde quando foge da chuva?
- Fugia da cor do meu pensamento.
- Qual, a mesma do vestido?
- Sempre, nem precisei ver pra saber.
- Queria ter entrado pra falar contigo, mas também estava fugindo.
- Do quê?
- Não faço ideia, descobre e me conta?
(...)
- E aquele inverno que nunca chegou heim, o que que a gente fez dele?
- Foi se esvaindo, penso eu , é essência, dizem que essas coisas ficam no éter, eu duvido.
- Não acha que futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que um dia Chico deixou?
- Eu até sinto o cheiro da bolha enorme nos cobrindo, cheia de retalhos, sensações de outros, de outrora, gosto de pensar nisso e aspirar lembranças póstumas.
- Mas não acredita de verdade.
- Não.
- E se a gente começasse a acreditar nessas coisas? Nas coisas boas, no que a gente quer acreditar mas não o faz por medo de decepção.
- Meus passos não distanciariam tantos centímetros dos seus.
(...)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

La felicité est rouge


comme les jours que ne laissent pas oublier.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sequência de fatos inexplicáveis acerca de um incoerente Petit Lion, parte I

Cede tato em ponto exato,
Escorrega à tinta fresca,
Emudece as notas secas,
Anoitece pranto sufocado,
Contradiz-se em atos cegos,
Pouco nota deleites ínfimos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um ar de transcencência me põe prisioneira na fina camada de poeira epifânica. Detenho rastros dourados partidos em série por uma mazela que não cabe nem mesmo ao tédio. Por outrora pertencerem só a minha guarda, sendo esse só mais solitário que ele mesmo poderia supor, imagino imensidões duradouras numa utopia translúcida. Atravesso distraidamente faixas estampadas de passos, ainda mais distraída do que a "Ela" de Chico poderia escolher ser, pois tudo o que meu pensamento abriga são as revisões de dó a dó numa busca obcecada pelo ponto exato onde o eterno se tornou sol, e o por enquanto tão intenso que dispensa sopros de sílabas. As ruas foram tomadas por lona e respingadas de tinta vermelha. O céu teve vontade de ter sido sempre amarelo e assim se fez. As linhas mais que expostas traçaram a beira-ser das escalas rítmicas. Ver tudo enquadrado passou a ser um corriqueiro suavemente agradável e desse filme queimado me resta nostalgia. O que a um sei-lá-qual-ver pode soar absurdo é o mais ter se tornado menos por exigência de um logo louco pra ser logo mesmo. Mas mais incrível mesmo é o longa ter sido anunciado no valor energético da farinha de trigo e ainda contemplado por uma pós-estreia em stop motion para meus olhos, que corbertos, retardaram a ver o óbvio. A alerta de Calcanhoto sobre pães doces ainda não surtira efeito. (Mas é que esse tudo se tornou tão tudo de mim que num ato de egocentrismo explícito não pude evitar apropriar-me sorrateiramente).

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dabadabadá, dabadabadá


(quand l'amour est plus bien fort que nous)

sábado, 10 de julho de 2010

Disposição

Eu quis construir imagens que se desenlaçassem ao menor toque, imaginei torres tortas em bolhas-de-sabão, tornei ímãs as rugas do meu pensamento. Eu me iludi, voluntariamente, me vi escrevendo receitas para um fôlego mal passado, depois passei a ler manuais de instruções que explicavam passo a passo como montar uma disposição sentimental. Engraçado como me comovia ao quarto ou quinto parágrafo, quando a conclusão se tornava inquestionável: a chave do problema não podia ser outra a não ser desestruturar metodicamente os mecanismos de defesa.
Talvez eu estivesse batendo sempre nas mesmas teclas, viciada num único percurso. Talvez eu estivesse presa na minha própria banalidade, inspirando cheiro de terra molhada no verão recifense, correndo como quem quer chegar urgentemente a lugar-nenhum naquela imensidão de qualquer-lugar.
Talvez eu fosse tão "ser" que precisasse inventar outro verbo para atribuir às minhas inquietações rotineiras.
Talvez não.
Só que o inverno chegou, e veio assim de fininho com um intuito bobo, queria me fazer ver que aquele cheiro fantasma que eu sentia de terra molhada não passava de cheiro de nostalgia comparado ao real. A chuva começou sorrateira até se tornar mocinha da história, lavou minhas concepções de mundo, minhas críticas problemáticas, minhas agonias.
Levou tudo embora, assim como banho de criança, tirou a sujeira de tinta do cotovelo e a massa de modelar das unhas.
Eu tentei tanto expressar minha gratidão, mas quando fui correndo pela estrada percebi que ela já tinha ido à muito, pegou carona com o pessoal do circo, nem aviso na porta da geladeira deixou.
É, ela queria que eu pintasse de novo minha vida, disse logo no começo que era só um canal, e que, falando nisso, eu podia canalizar umas coisas meio blablabla pra outras mais mimimi.
Achei irônico, mas só me restava seguir, depois que você pinta um auto retrato assim não adianta mais apelar pro surrealismo, está tudo muito claro.
Então eu voltei andando, descalça pela calçada, nariz apontando para o umbigo.
E aí caiu um pingo na minha cabeça, mas essa já era outra.
Na verdade, essas já eram outras.

sábado, 26 de junho de 2010

Elis e Tom

-padaba
-rá
-paidibadida
-a
-zazaziza
-a
-azamaunêna
-pa
-anabebê
-paa
-ananenê
-paaa
-ananene
-paaaa
-anananê
-paaaaa
-anananá
-paaaaaa
-anananene
-paaaaaaa
-ananabebebe
-paaaaaaaaa
-anananananá

terça-feira, 22 de junho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

metalinguística é egocentrismo

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

Hoje é uma dia deveras triste.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Rare

Aspirar
Inspirar
Transcender
Enlou-crescer

domingo, 13 de junho de 2010

Ininteligíveis

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Carta II

Querido Tom,

Você tinha razão, mais uma vez.
Eu estava cansada dos gestos banais, das palavras banais, do dizer pré-fabricado, não me cabia de tanto eu e de tanto mundo que se tornara meu eu, uma realidade externa alagando e fazendo submergir meu satélite pessoal. Eu estava cheia, tomada, densa no pior sentido, densa de razão, de arranjos alheios e acasos amáveis, repleta de A's e áspera.
Aquilo transcendia a crise, era o caos metalinguístico, existência potencializada, afirmação de toda verdade relativa que eu costumava negar para me poupar, infantil eu sei, acho que eu já não me importava na época, mas aquilo me sugava e me jogava nua e crua às ilusões diárias.
Banais, mais uma vez.
Soava quase real minha necessidade de reter o verde da cena, as folhas refletindo luz, o sol que antes me dera lar, agora inóspito. Eu tentava enquadrar cada milímetro desimportante e registrar. Tudo o que eu queria era transpor o superficial à essência por não aguentá-la mais em sua recente imponência destrutiva, se pudesse apenas a largaria em qualquer esquina e torceria para que fosse esmagada e despedaçada por um olhar inocente, mas eu não podia.
Non, la faute à moi, comme tu m'as dit.
Eu preferiria com ceteza trancar pés, mãos e cabeça, faria com os cabelos corda e com os olhos revolvéres, usaria de qualquer artifício que pudesse me levar pra longe, não importando de quê.
Mas no fim a conclusão óbvia que ia de encontro aos meus princípios era clara, cada indivíduo é responsável por sua própria felicidade e ainda assim eu havia perdido a minha para você.
Não, não disse que você a roubou, eu apenas a deixei aí, mais por distração propriamente dita do que por vontade ou altruísmo, há de se perceber.
E não importando se eu o amava ou não (mas eu amava) passei a me doer à qualquer menção curta, era um auto-flagelamento simbólico que representava a vivacidade da minha morbidez inconsequente.
Você já não valia tanto mais, eu era agora fria e hostil, finalmente a superfície virgem da vida havia se desdobrado em essência, pronta para ser pintada.
Agora eu estou diante de uma aquarela neutra, onde predominam os tons de transição, extremidades e completudes descabidas perderam seus lugares.
Te escrevo porque sentimentos póstumos parecem-me mais fantasmas, e você bem sabe que a realidade alternativa sempre me seduziu um tanto facilmente.

Alguém.

domingo, 6 de junho de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

Em B(r)usca

Largou as chaves sobre a mesa num ato displicente. Ao levar os dedos em distração lenta para cima, tateando o vento frio que sua chegada fez jorrar no corredor, tomada por uma cegueira inconscientemente optativa, pensava apenas na bossa, e a carregava. Bolsa, bolsos, baço, aço, saltos, era tudo bossa. (Uma onda cujo desejo mais profundo em sua alma inexistente era simples: existir eternamente por um milésimo de segundo, e eterna que fosse, arrasaria civilizações, deixando-as em pernas bambas por sua súbta e inadmissível falta. Criança imaginativa perdida num copo d'água, essa tal de bossa). Mas por mais que estivesse plena em bossa, a moça era mais, talvez não naquele momento, mas, sim, era mais, e assim deixou pensamentos musicais dissipados pelo som da chave finalmente pousada na madeira, ato que a fez lembrar, logicamente, de chá. Sim, havia chegado da rua sem que houvesse uma única caixa de chá entre as sacolas, elas exalavam cheiro de fumaça e vazio nascido de si mesmo, toda ironia é triste. E o chá era fundamental para que ela pudesse ver o sol se despedir sem culpa entre às 17:00 e às 17:30, olhar pro céu era fazer nada, e fazer nada é pecado, oras, então ela se fazia esperar o chá ferver.
Mas agora não havia chá, havia o sol esperando-a debruçar-se na janela para se despedir, havia o desconsolo da falta que aquilo lhe causaria, havia o céu, a mata sorrindo, a moça.
Era cruel a total ausência de pespectiva que substituia o chá, ela pensou em sair à procura, seguiria uma trilha deixada pelo rastro do aroma, selvagem. Mas estava tão submersa em seu desconsolo viciante que não quis deixá-lo, sentia-se senhora dele, era ela e ele, ela e a melancolia, laços afetivos irreais tingidos por uma atmosfera noir, e o drama de ser se esfarelava banhando-a do mais alto fio de cabelo à ponta dos pés.
Por fim, cansada, deixou-se cair em alguma parte da cozinha. Ouviu os passos da razão entrarem sorrateiros e silenciosos, não houve como levantar-se e fugir, seu masoquismo estava para ter fim. Foi então despida de toda a convenção metódica, torturante e insana de uma sociedade bárbara, viu seus medos e pressupostos escorrerem pelos dedos, manchando as unhas, havia transformado-se numa tela em branco.
O vizinho pôs um disco de Jobim para tocar no apartamento ao lado. Ela, ainda caída, apenas cantou.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Carta para Julian

Querido Julian,
Não sei o que te deu para sair num afobamento tão eterno, você acabou esquecendo coisas que por até quem sabe abstratas formaram uma agonia regada de ânsia dentro de mim. Parece que o essencial ao seu ser ficou pra trás (ou seria essencial ao meu ser?), não sei, só o que me resta de consciência são as cinzas de cigarros que ficarão a esperar consumo no prato daquela minha tulipa. Só o que consigo conceber como verdade são as notas de Frank Sinatra acolhidas pelo repeat por essa vida, melodia suave deteriorando meus canais auditivos. Minha visão contempla apenas aquela mancha vermelha, suco de acerola, que num dia distraído você deixou em meu vestido branco. De tanto tentar maníacamente guardar o aroma do teu café esquecido no balcão,meu nariz tornou-se insensível a qualquer outro cheiro. Por nem mesmo com todos os teus casacos sobrepostos um após o outro conseguir resgatar o calor do teu abraço eu resolvi me despir e me entregar nua ao frio glacial que a tua ausência me causa. Passei a achar vulgar o gosto do que tenta ser gosto e assim me alimento daquilo cujo sabor está num estranho acaso, folhas de ofício, saias listradas, as cordas da guitarra que você esqueceu, os filmes 120mm para a minha analógica que nem deus sabe onde está. Meus olhos não suportam luz maior que a desse apartamento com janelas fechadas, minha respiração desacostumou-se ao ar das ruas, meus pés falham ao quinto ou sexto passo, minhas mãos tremem, meus ouvidos reproduzem sons fantasma. Tua ausência gerou minha inexistência parcial, e agora vivo um delicioso prazer masoquista.
Com qualquer palavra com "A" que você queira (amor, afeto, alusão ao ódio...),
Alice

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Profusão

"Minha única grande vontade agora é poder escrever numa língua tal que ninguém jamais entenda o significado"
Ela pensou nisso e sorriu brevemente, um tímido sopro de luz tomou de súbto a sua face.
Não era verdade, de modo algum.
Le petit lion...
Pôs um disco tropicalista na vitrola e se deixou ter a alma furtada pelos sons, desejava fazer um longo passeio à qualquer lugar que não fosse um lugar qualquer. Aquilo mais uma vez era demais, e por demais que fosse, bem demais.
Fitas no cabelo, caracóis nos sapatos, lomo nas mãos. Luz ou letras, pouco importava.
Viu a projeção de sua projeção no espelho, incompatível.
Achou que por ali bastava de altos devaneios, segurou as mãos de Ricardo Reis e ambos saudaram o passar silenciosamente.
Porém, por mais silenciosa que fosse, algo dentro de si inspirava histeria, comoção forte demais para ser desprezada em meio a busca por equilíbrio.
Então ela notou que intensidade e eternidade haviam sido presenteadas com o dom da inerência.
Do reflexo agora se viam rodopios de uma estampa listrada.
O amor comeu seu medo de amar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

sendo,

assim:
ah, sim!
assado.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Waly Salomão parecia saber

desde o início.

"e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo... acordo"

quarta-feira, 17 de março de 2010

grito

vie

Toda perfeição a mim soa desesperada, toda metáfora esconde uma infinidade de passagens para um precipício, todo sono parece portar uma carga de nostalgias próximas, frias, crueis de um modo geral.
Minha agonia é descabida, sim, porém crescente, de tal forma que qualquer tentativa de calá-la tornaria meu corpo um ambiente inóspito para qualquer alma.
A felicidade foi desmascarada por uma receita de bolo.

Infinito infinitivo

Gosto de me perder entre as mil listras que repelem e atraem a fumaça do café, sei que é preciso abrir a janela e sentir o vento gélido tocar meu rosto, porém para mim o necessário se perde quando tomo a inconsciência exata tão corriqueira de mim, prefiro sentí-lo por inteira, mergulhar correndo, prefiro tomar uma bicicleta vermelha e me partir em duas cidades, carregando uma mala cheia de livros e lp's, cantando uma velha canção de Nina Simone, desejando escrever poemas sobre os segredos e confidências das nuvens que me contemplam tal como chuva, molhando meus cabelos e levando embora minhas lágrimas, pois sei que Pessoa estava certo quando disse que navegar é preciso, sempre é, manter as antigas lembranças já não é preciso, o que conta é o desapego e a vontade de ter tudo de novo, deixar-me levar entre mil contextos regados a blues, o que conta são as páginas amareladas do diário, deveria queimá-las e jogar suas cinzas do alto de uma colina ao fim de tudo, e assim recomeçar, partir em direção ao sul.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Pausa para que?

Gostaria de parar para explanar uma infinidade de coisas desprovidas de qualquer razão ou sentido, não por necessidade direta de se dizer algo sobre uma dessas abstrações aleatórias e até então desconhecidas, mas por necessidade interligada e franca de não se dizer ou fazer absolutamente nada a respeito daquilo que convém, sei que a hora de atravessar a rua já chega e eu não poderei continuar desse lado armada apenas com a sedutora desculpa de estar analisando antes de dar o primeiro passo a frente. É praticamente incontrolável me manter fincada ao chão, porém, eu preciso seguir, não com a fraca esperança de ser jogada a mil metros por um fusca azul turquesa, mas tendo em vista o ideal utópico de poder fazer algo a respeito das listras do meu espelho ao chegar lá. A chuva de tinta vermelha passou, e agora uma tempestade de cinza parece aproximar-se lenta e dorolosamente, como a lâmina de Luiz Buñuel aos olhos de quem vê a cena, por mim choveria palavras, onomatopéias ou até mesmo sílabas soltas respingadas de liberdade. As flores do meu caderno irão muchar e sei que as borboletas seguirão a procura de outras. O canto dos passaros se faz cada vez mais distante e eu não faço ideia da hora de ir. Por que não seguir as palavras "Coffee, Latte, Macchiato" que se destacam no caminhão? A direita nunca antes pareceu tão favorável. Ironia cruel? Eu ri. É chegada a hora. 1, 2, 3.
Multidão mais solitária impossível.

sábado, 6 de março de 2010

Três

Já.
Nela o susto se fazia estampa, era listra, xadrez, chita.
Viu dois estranhos dentro de si, um rapaz incomum, que a lembrava Sonho de Uma Noite de Verão, ele tinha cabelos flamenjantemente vermelhos e uma barba pontuda de mesmo tom, olhos verdes que faiscavam, pele dourada.
Ele ardia.
O outro ser era uma moça, ela tinha longos cabelos castanhos e cantava.
Sempre.
O que a fazia lembrar da moça eram as sapatilhas, cada uma de uma cor, sempre diferentes. Além daquelas saias enormes que carregavam uma floresta de música.
A moça tinha uma voz doce e falava das suas sensações como se fosse uma flauta seguindo as notas da partitura.
O rapaz era um poço extremamente profundo, ela não conseguia ver absolutamente nada do que havia em seu interior e desse modo morria de vontade de se mergulhar naquele estranho desconhecido.
Ela se afogaria, é claro, mas isso não era importante.
Ela quis tanto que aquelas palavras soltas explodissem, que as linhas incendiassem e que a narrativa voasse para longe.
Quis tanto que no fim tudo pareceu água, pequenas ondas se formavam, chuva.
Ela tocou rapidamente a água e no mesmo momento se viu em chamas.
No fim sua vontade maior era que a correção automática do word fosse pro inferno.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Matinal



The White Stripes


15


Erasmo Carlos


7


The Beatles


4


Charme Chulo


4


Bow Wow Wow


3


Ecos Falsos


3


Júpiter Maçã


3


Julian Casablancas


3


A Banda de Joseph Tourton


3


The Cure


3


Siouxsie and the Banshees


3


Os Mutantes


2


The Killers


2


Édith Piaf


2


Pato Fu


2


Epica


2


Cazuza


2


Devendra Banhart


2


Luisa Mandou um Beijo


2


Leonard Cohen


1


Franz Ferdinand


1


Móveis Coloniais de Acaju


1


Los Hermanos


1


Babyshambles


1


Phoenix


1


Thiago Pethit


1


Bazar Pamplona


1


עברי לידר


1


The Kooks


1


The Strokes


1


Tiê


1


Donovan


1


Cássia Eller


1


Raul Seixas


1


Vanguart


1


Mombojó


1


Elliott Smith


1


Fernanda Takai


1


Novos Baianos


1


The Libertines


1

quarta-feira, 3 de março de 2010

Felicidade, o que é isso?

Ela só pensava em cobrir a si mesma com aquelas partituras todas, a vida seria tão mais fácil se não existisse.
Pelo menos estava chovendo.
As horas passavam com gosto de verbos soltos, adjetivos proparoxítonos pingavam em sua mente, o guarda-chuva amarelo não poderia jamais impedir tal coisa.
A última música acabou e trouxe de volta a primeira, era um ótimo disco, Clube da Esquina.
Os passos corriam apressados dentro de si, do outro lado estavam à passeio.
Aquilo era loucura, mínimas, colcheias, que diferença faz?
Ré, sollásidó, ré, solsol.
O arco tremeu na corda e caiu.
Agora só se ouvia o som das folhas caindo, e dos passos, e da chuva, e das folhas caindo, e dos passos, e da chuva, e das folhas caindo, e da chuva, e das folhas caindo.
Todas as folhas já estavam ao chão, a chuva parou e as pessoas voltaram pra casa.
Ela passou a ouvir a canela queimando no chá, ouviu a chita da saia se entrelaçar com as fitas, ouviu a madrugada de Cecília Meireles cair a suas costas.
Daí em diante era só dança.
O azul foi se chegando timidamente, era um senhor simpático de chapéu xadrez e dominó embaixo do braço.
O céu a abraçou e
pronto.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tem coisas que eu posto aqui e depois excluo.
Odeio usar o verbo ter no sentido de existir...

Costume

São tão soltas as palavras todas, tão intransitivos os verbos, não só os que são, mas os que são sem saber, ou sem que a gente saiba. É uma solidão linguística que me atormenta. O disco de Chico na vitrola só atrapalha, ô vida, não consigo mais ficar ao sol nem molhar minha juba, e agora me parece apenas natural que você suma no mundo sem avisar, isso não causa mais loucura.
Ando sentindo como se tivesse partido ou morrido todos os dias, e o tempo só demora a rodar.
A corrente é desprezível.
Tudo o que falam é ignorável, e paradoxalmente tais coisas andam me deixando destruída. Tão down que nem Cazuza entederia.
As pessoas impões regras, já temos tantas e elas ainda fazem questão de aumentar o número a cada hora, querendo de todo modo te fazer acreditar que estão certas.
Pessoas, fiquem caladas, vocês são ótimas assim.
O pior é quando você acredita, ô vida.
É preciso amar dessa vez como se fosse a última, e de fato é.
O problema é que eu já não sei o que amar.
Eu não estava a toa na vida e ninguém me chamou.
E o céu vai ficando laranja azeda, o suco amarga e o calor congela.
Lalala.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Habilidades Profissionais de Clara X. Pereira

Fotografar os tons do por-do-sol, Passar breu no arco do violino, Enrolar fitas estampadas em latas de Coca-Cola, Fazer a ponta de todos os lápis ao meu redor enquanto imagino uma história, para depois digita-la no Word, Transformar a Lei de Ohm em meditação, Identificar os elfos, leprechauns e ninfas que vagam pela UFPE como estagiários ou mesmo estudantes transformando meu universo particular num sonho de uma noite de verão, Conversar, dançar e pular com desconhecidos em shows, Lembrar nomes de substâncias químicas que existem nos remédios, mas não conseguir lembrar os nomes dos remédios em si, Ficar imaginando diálogos macabéicos nos lugares mais inusitados e rir sozinha do quão absurdos seriam se fossem postos em prática, Identificar os aromas desprezados, os sentimentos desconhecidos e os cenários escondidos nos olhos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Vontade

Então ela foi tomada pelo ar da tarde, o cheiro da chuva entrou por inteiro em suas narinas e ela quis que o azul anil do eterno fosse cama elástica.
A luz era amarela e deixava um rastro curiosamente lilás.
Ela desejou que o céu fosse maior, maior, maior.
E crescente.
Abriu a janela do quarto, sua ultima ação foi um suspiro.
Seu céu será para sempre azul anil, amarelo, lilás e rosa. E ela flutuará nele eternamente, como um sonho.